Eu moro em uma cidade cercada por três rodovias, é praticamente impossível sair daqui sem usar uma delas, como único caminho para faculdade uma dessas rodovias trazem lembranças trágicas.
Como toda rodovia essa também tem passarelas e em uma delas, se eu utilizasse linguagem matemática, diria que é exatamente nessa passarela onde a função muda seu comportamento e nesse caso a função sou eu. Aquela passarela foi palco de um encontro embaraçoso e muito esperado por mim e passar por ela todos os dias havia se tornado uma tortura constante. Por mais clichê que fosse o tempo deu conta e desfez as lembranças, com uma ajuda intensa do garoto que ocupou meus pensamentos a seguir. O fato é que depois de brigarmos esse final de semana eu passei pela passarela hoje quatro vezes e aquele sentimento nostálgico invadiu meu peito e eu recomecei a idealizar as realidades alternativas que minha vida poderia ter tomado.
Se eu não tivesse beijado um cara aos dezesseis anos hoje talvez eu estivesse em uma metalúrgica, pegando pesado para sustentar mulher e filha (o), esperando na angustia para beber ate esquecer os problemas cotidianos.
Se eu tivesse entrado na faculdade assim que terminei o ensino médio, eu estaria trabalhando em uma empresa de desenvolvimento, formado, com um carro na garagem e contatos no msn para conseguir sexo com um clique.
Se eu tivesse ido embora ao encontrar o Cisne naquela passarela, bom talvez eu estivesse arrependido, mas o revés é que estou arrependido e decepcionado, talvez por ele ser o primeiro cara a me rejeitar a longo prazo. Acho que a passarela é um símbolo concreto de uma rejeição e por isso me atormenta tanto. Apenas acho, assim como eu acho que sinto falta, assim como eu acho que superei, assim como eu acho que vai passar.
Afinal eu deveria parar de achar tanto, porque nessa realidade de escolhas atropeladas eu, bom eu sou… Eu sou apenas um cara estupido sofrendo com as minhas certezas incertas, sem dar o braço a torcer e levando todos que quiserem me seguir para o alto de um arranha céu liderando um suicido coletivo.
Fala, blz.
Tempao que nao nos falamos.
Um abraço,
Dentro do Armário
Poeticamente familiar. Gostei das apalvras, curto muito finais exagerados, acho que a vida é assim. Se foi exagerado quer dizer que foi verdadeiro. Espero que a dor passe logo. Abraço.